68 77 2008 11ª 109ª... cabala ou megasena
...for the times they are a changin’
Tem um escritor, amigo meu, que tem um blog. É o www.reset.us.splinder.com . O blog. O escritor chama Manna, Nuno Manna. No blog você acha várias leituras fragmentadas do mundo (adorei isso). Mas tem algumas coisas lá que realmente me impressionam. Tem um post que se chama: As melhores músicas de 2007. Ele lista 12 músicas.
Se alguém coloca uma arma na minha cabeça e fala: me diz 12 músicas de 2007... Eu tomo o tiro.
Mas e daí? Ele frequenta a seção lançamentos (dos sites de música, porque nunca entrou numa loja de CDs na vida), enquanto eu compro discos de vinil. Qual o problema? Problema nenhum. Existem várias pessoas de fazem uma coisa, várias que fazem outra e várias que fazem as duas. Porque falar disso?
Não parece, mas esse texto não é sobre o gosto musical do Nuno, nem sobre o meu, muito menos pra falar que as músicas de antigamente eram melhores que as de hoje meus netinhos... O ponto é simplesmente o seguinte:
Porque eu sei de trás pra frente as 5 melhores músicas de 68, e nunca ouvi falar das de 2008? Obs.: o “eu” dessa frase vai perder a importância e virar um “todo mundo”, daqui a pouco. Continue lendo.
As 5 melhores músicas de 2008 são:
5 – R.E.M. – Supernatural Superserious
4 – The Charlatans – Oh! Vanity
3 – Sigur Rós – Festival
2 – Portishead – Machine Gun
1 – MGMT – Time to Pretend
As 5 melhores músicas de 1968 são:
5 – Chico Buarque – Roda Viva
4 – The Doors – Love Street
3 – Tropicalistas – Panis Et Circensis
2 – Rolling Stones – Sympathy For The Devil
1 – Beatles – Hey Jude
Não é que EU conheço essas e não conheço as outras. Tem milhares de pessoas mundo afora que decoraram todas as letras do MGMT e nunca ouviram uma música do The Doors, mas tem milhões e milhões que veneram o Jim Morrison e não fazem a mais remota idéia do que venha a ser MGMT. Vamos aos números:
Na lista da Billboard de singles mais vendidos, a melhor música de 2008 chegou no máximo a posição 109. A melhor de 68 não só chegou à 1ª, como ficou nove semanas lá. E não importa que comprar discos é coisa do passado. O fato é: quando Time to Pretend chegou ao 109º lugar, a 1ª da lista era uma música da Mariah Carey chamada Touch My Body, na qual ela fala pra um nerd touchar o body dela, mas que não quer que nenhum video dela vá parar no youtube...
Houve um tempo em que a lista “melhores músicas do ano” era muito parecida com a lista “músicas mais tocadas do ano”. Hoje, não é. Lembra quando você passou pelo 3º paragráfo desse texto e se perguntou porque “muito famosa” e “pesquisava” estavam iguais as manchetes do Supernotícias e do Aqui, só faltando estar em neón e piscando? Elas estavam assim porque dizem tudo. Houve um tempo em que as melhores músicas ficavam muito famosas, o que hoje é uma exceção, como aconteceu com Rehab. Agora, pra conhecer as melhores músicas, você tem que pesquisar, tem que ir atrás. É como se a BH FM de 68, A RÁDIO QUE TOCA SÚ-CÉ-ÇÚ, tocasse Hey Jude (o que, de fato, acontecia). Como se o White Stripes viesse ao Brasil hoje e ao invés de tocar no Free Jazz pra 5 mil pessoas, tocasse em Copacabana pra um milhão e meio.
E por que essa mudança? O que aconteceu entre 68 e 2008 pra que as rádios trocassem vinho por água, sorvete por feijão, maconha por orégano? Hã, orégano?
Primeiro inventaram o Hard Rock. Antes as músicas de rock falavam que she loves you, pediam pras garotas light my fire e love me tender, enfim, falavam que all you need is love. Um belo dia começaram a descrever uma highway to hell, um sabbath bloody sabbath, e até pedir sympathy for the devil.
As rádios suspeitaram que seria melhor tocar My Cherie Amour e Let’s Stay Together.
Depois vieram seres horripilantes propondo anarchy for the UK, e querendo um monte de coisas estranhas: i wanna be sedated, i wanna sniff some glue, i wanna be your dog, i wanna be your boyfriend...
As rádios tiveram certeza que era melhor tocar Stayin’ Alive e Blame It On The Boogie
Até aí, tudo ótimo, mesmo porque, Jacksons 5 é muito melhor que Ramones. O problema é que a função que as músicas do Stevie Wonder tinham, hoje são desempenhadas pelas músicas do Usher feat. Mulher-gostosa-dançando-ao-som-do-playback.
Mas é a mídia que passou a encher o povo de lixo, ou o povo começou a fumar orégano por conta própria? A rádio toca merda porque o povo gosta, ou o povo escuta merda porque é o que a rádio toca? Ou não é nada disso e eu to viajando? Que as rádios não têm o menor interesse no enriquecimento cultural da população, não tenho a mínima dúvida, pois as rádios nada mais são do que empresas, logo, fazem parte da classe dominante, e para que continuem explorando a população, é fundamental que mantenham-na imersa na mais profunda ignorância, o que fazem muito bem com novela, futebol e canções de amor, sejam elas do Caetano Veloso ou do Mastruz com Leite. A partir daí, sendo essa a referência cultural majoritária, o povo começou a produzir funk por conta própria, e agora não adianta museu de graça, nem TV Cultura, nem show do Milton Nascimento na Praça da Estação, o que vai dar 50 pontos de audiência vai ser o que passar na Globo, seja o lixo que for?
Pode ser, sei lá. Sei que, se a 11ª melhor música de 2007 tivesse sido lançada em 77, teria sido a 11ª música mais tocada do ano. She look so cool in her new Camaro...
















